Série ROUTE 66
Luís Vasconcelos
29.11.2025 :: 17.01.2026
(encerra de 25 de dezembro a 3 de janeiro)
Quarta a sexta 15:00-19:00, sábado até às 20:00
O Luís Vasconcelos e eu fomos feitos para nos juntarmos. Nascidos no meio do século passado, vivemos exilados em Paris durante cinco anos, antes de podermos, com o 25 de Abril, regressar a Lisboa.
Camaradas de profissão, a máquina fotográfica e a caneta cruzaram-nos muitas vezes. Um dia fomos famosos. Em Macau, nos últimos tempos da soberania portuguesa, acabara de ser preso o Dente de Ouro, célebre bandido. Os jornais de Hong-Kong (mais de um milhão de tiragem) publicaram a nossa foto, corajosamente a passear na rua. Dizia a legenda: “Inspectores da PJ chegaram de Lisboa”.
De outra vez fizemos uma obra-prima. Na guerra do Kosovo, tomávamos café em Prizren com a nossa intérprete. O motorista muçulmano olhava-a, zangado. Um camponês louro abordou-nos com uma proposta. Queria levar-nos à sua aldeia: “Ela vai, ele, não”, disse, apontando para o motorista. Ok, precisávamos dela para a conversa, dele estávamos fartos.
Lá fomos na carripana do hospedeiro para um ninho de águias. A aldeia era amuralhada como um forte de contrabandistas. Das montanhas Sharr, víamos a Macedónia e a Albânia, aos pés. Connosco estava a etnia mais complicada do Kosovo: os gorani, louros como os sérvios; muçulmanos, por escolha. Contradição perigosa, a causa da guerra.
Ao regressar a Prizren, por um caminho de cabras, o Luís dormia e eu gritei para pararmos. Ele diz, hoje, que não dormia e que eu não gritei. O facto é que parámos. Uma cena bíblica posou. Dois cavalos brancos, um velho de cara talhada à faca, duas jovens louras, três bebés e o nosso guia, de colete balcânico berrante de cores misturadas, expondo os receios do seu povo. Ainda lá estão?
Há pouco, o Luís Vasconcelos deu conta de que a estrada mais famosa do mundo, a Route 66 ia fazer anos – um século, em 2026. Uma tabuleta que atravessa em diagonal os Estados Unidos, 4 mil quilómetros, a América inteira condensada. Uma solidão para ser caçada em instantâneos. Eu fiquei para legendar, tão fácil, quando o Luís foi para mostrar quanto uma fita de asfalto pode ser empolgante.
Parte-se com um cidadão de gravata esvoaçante. Sob o marco do começo (“Begin, Route 66”), Chicago, a cidade do vento, com arranha-céus ao fundo. Passa-se pelo Kansas e no estado da pasmaceira que o filme O Feiticeiro do Oz transformou em ilusão, os prédios têm torres barrocas como na Cidade das Esmeraldas.
Logo, vêm as planícies de grãos, que ele pontua com um celeiro enorme, de que os distraídos não se dão conta. A Route 66 não é para distraídos. Ela abana-nos com avisos. “Mid Point”, ponto do meio: “Chicago, a 1139 milhas; Los Angeles, a 1139 milhas”.
O lugar fica em Adrian, Texas: “Quando está aqui, está a meio caminho” (como seria bom podermos dizer isto durante muito tempo da vida). No ano passado, a aldeia tinha 135 habitantes, este ano já só tem 130. A solidão da Route 66 adensa-se. A estrada rola continuamente, mas nas suas vilas o sinal stop parece inútil. Porquê parar, se ninguém circula?
A Route 66 insiste: “O lugar onde o Este e o Oeste se encontram”, diz um cartaz. O fotógrafo, que sabe da influência das imagens, ilustra-a com um Studebaker – versão station wagon, anos 50, com as portas embutidas de madeira das florestas atlânticas – cruzando-se com um Cadillac descapotável, das praias do Pacífico.
Algures, outro Cadillac, com a proprietária que exibe os seus cabelos louros e curtos de Kim Novak. O espada (os franceses chamam a estes carros longilíneos “les belles américaines”), versão de 1959, tem um recorde da indústria automobilística: as mais longas aletas (asas da bagageira de trás), cada uma com faróis duplos em forma de bala.
Um mar de postes de electricidade e travessões horizontais, tudo de madeira. Há 180 milhões de US electricity poles, a cada americano caberia meio poste. Na mesma foto, a imagem sugestiva de um coelho: uma reprodução imparável de postes de madeira – mais uma paisagem americana.
De repente, no deserto do Mojave, um “Bagdad Café”. De facto, é o anúncio de que ali, em Newberry Springs, atravessada pela Route 66, se rodou um filme famoso (“Bagdad Café”, inspirado em romance de mesmo nome, na década de 1980). Bagdad era uma vilória a 80 km, hoje fantasma, da qual só resta uma árvore seca e caravanas abandonadas ao sol. Hoje a ficção reinventou-se como sendo ela a realidade. Bagdad e o “Bagdad Café” já não existem. Em Newberry Springs, o café que se emprestou para as filmagens, guarda a memória e é atracção turística.
Aparece um camião entre dois canyons, uma Joshua tree, árvore mítica, e um falso Elvis de peito aberto e poupa com Brylcreem…
Inesquecível é uma paisagem lunar: mergulhados no deserto, dez carros americanos perfilam-se, entrando na areia até ao pára-brisas. Três artistas plantaram-nos, dispostos como a pirâmide de Gizé. Bruce Springsteen fez-lhe uma canção, Cadillac Ranch. Um grande fotógrafo viaja para contar coisas consabidas e outras sem explicação.
Tudo acaba em Santa Mónica, num concurso oleoso de músculos varonis, a grande parada gay anual de Los Angeles.
Ferreira Fernandes
Lumina vem do latim lumen, palavra que evoca luz, claridade e descoberta. A Lumina Galeria nasce desse fulgor e da vontade de revelar histórias que a luz desenha, abrindo um espaço onde o olhar se demora e a fotografia encontra lugar para respirar. Para dar início a este percurso, escolhemos um caminho lendário: Route 66, projecto criado em 1995 por Luís Vasconcelos.
Inspirado em On the Road, de Jack Kerouac, e embalado pela banda sonora de Bagdad Café, Vasconcelos partiu de Chicago ao volante de um Pontiac Catalina, acompanhado por três amigos, rumo ao horizonte inesgotável da “Mother Road”. Foram quase 4000 quilómetros, atravessando oito estados, desertos sem fim e pequenas cidades suspensas no tempo, onde a América parece ainda viver num sonho feito de pó, néon e céu aberto. As suas imagens transportam-nos para esse território mítico, onde estrada, liberdade e viagem se cruzam, conduzindo-nos, quase sem darmos por isso, para dentro de uma narrativa que é tanto geográfica como emocional.
Nesta primeira exposição da Lumina, as paredes que antes eram silenciosas recebem agora a cadência de um percurso vivido ao volante e ao ritmo do acaso. Entre paisagens desoladas e encontros improváveis, cruzamo-nos com uma rockabilly girl, um Elvis de beira de estrada e uma parada gay em Los Angeles, numa sucessão de momentos que parecem pertencer ao cinema, à música e ao sonho, tudo ao mesmo tempo. Mais do que inaugurar um espaço, celebramos um autor que, para além de uma carreira de referência no fotojornalismo, construiu uma obra profundamente pessoal, marcada pela memória, pelo quotidiano e pelo humanismo. Aqui, cada fotografia acende uma centelha de viagem e lembra-nos que a luz, quando encontra quem a saiba ver, pode transformar o mundo em caminho. E para quem desejar prolongar a viagem, é possível levar para casa um fragmento desse sonho, guardado em papel e luz, para continuar a fazer parte de outras paisagens e outras vidas.
Bruno Portela