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Le Mur

Le Mur é o lugar onde o olhar se detém.

O conceito de Le Mur atravessa a arte e a literatura como uma metáfora de fronteira e revelação – o lugar onde o olhar se detém e, ao mesmo tempo, onde o pensamento se projecta. É superfície e obstáculo, mas também espelho, campo de inscrição e espaço de resistência. Se em Sartre a parede é o limite que devolve ao sujeito a consciência de si, em Rilke é o ponto onde o visível se abre para o invisível. Para outros é o território onde o gesto do artista se debate com a matéria e com o silêncio.

António Faria inaugura esse território com We’re on the Road to Nowhere. O título remete para a icónica canção dos Talking Heads, mas o eco que aqui ressoa é mais interior, mais silencioso. O caminho que Faria evoca não é uma estrada concreta, é uma condição espiritual, um estado de busca contínua. Não há chegada – há apenas o impulso de avançar, a consciência de que a direcção é sempre mutável. Talvez a ilusão resida em acreditar que o caminho certo (e único) existe.

Cada obra é um fragmento de percurso, uma pausa no movimento. Faria não representa o caminho: invoca-o. As suas composições habitam o entre lugar – aquele lugar entre o impulso e o repouso, entre o gesto e o silêncio.

O azul domina as obras como uma respiração. É cor de travessia e de suspensão, de profundidade e de dúvida. O azul é o que resta quando o horizonte se dissolve. As molduras brancas reforçam essa ideia de orientação – lembram a sinalética das autoestradas, os sinais que prometem rumo e, ainda assim, nos mantêm em movimento, algures entre a partida e a chegada. No diálogo entre o azul e o branco, entre o espaço contido e o espaço mental, António Faria constrói uma gramática de passagem.

As suas obras não afirmam, interrogam. Não descrevem o caminho, revelam-lhe a ausência. Cada obra é uma pausa no percurso, um fragmento de pensamento entre dois silêncios. O artista caminha sem procurar chegar – porque sabe que a procura é, em si mesma, a forma mais pura de permanência.

Em Le Mur, a parede – esta parede – torna-se metáfora do percurso interior: o lugar onde o gesto encontra resistência e, nessa fricção, revela sentido. We’re on the Road to Nowhere é um exercício de consciência – sobre o infinito que se abre no instante em que reconhecemos que não há fim neste caminho.

Porque o caminho é, afinal, aquilo que nos atravessa.
E é no seu vazio que, citando a música de Paredes, se constrói o movimento perpétuo.

Rute Reimão

António Faria

We're on the road to nowhere

Rute Reimão