O Som de fazer o último Poema
Sebastião Castelo Lopes
07.02.2026 :: 28.03.2026
Quarta a sexta 15:00-19:00, sábado até às 20:00
O som de fazer o último poema
Maria Gabriela Llansol in Cantileno, p. 25
Le Mur é, agora, o lugar da contenção.
Não o da errância, mas o do limite. A parede deixa de ser superfície de projeção para se tornar resistência: aquilo contra o qual o gesto se mede e o olhar se reconhece.
Na instalação de Sebastião Castelo Lopes, o desenho não acontece em abertura plena. Existe sob retenção, inscrito num campo que condiciona a aproximação e torna visível a distância. Tal como na arena, onde a ação se apresenta como livre apenas porque obedece a um perímetro rigoroso, também aqui o gesto só se afirma porque é suspenso.
A contenção atravessa práticas antigas e rituais repetidos, onde o corpo se expõe dentro de formas herdadas e a crença persiste através de regras. O excesso não é contrário ao limite: nasce dele. O trabalho de Sebastião Castelo Lopes habita esse lugar paradoxal — onde aquilo que é mantido não se fixa, e aquilo que insiste não se liberta.
O desenho surge em estado de tensão contínua, suspenso entre a afirmação e o silêncio. Não descreve, não ilustra, não resolve. Como algo antigo que resiste, a contenção não apaga o gesto: torna-o tenso, suspenso. A jaula não anula a presença — concentra-a, obriga-a a permanecer.
A distância imposta não é obstáculo, é condição. O olhar é forçado a reconhecer o seu próprio limite, a aceitar que não há acesso direto nem experiência neutra. A relação torna-se semelhante à do rito: acreditamos na espontaneidade, mas sabemos que ela é construída, reiterada, sustentada por formas que antecedem o sujeito.
Em justaposição com A Prova do Tempo, esta obra desloca o centro da atenção do gesto visível para aquilo que o sustém e o repete. Se a fotografia fixa o corpo em exposição e o instante partilhado, aqui revela-se a arquitetura silenciosa que atravessa o tempo, permitindo que o gesto volte, sem nunca ser o mesmo.
Em Le Mur, a parede torna-se arena silenciosa — não o lugar da ação evidente, mas da permanência contida.
Onde o desenho não se retira, mas insiste.
Onde a crença não se afirma, mas permanece.
Porque o que atravessa o tempo não é o que se expande,
mas aquilo que aprende a durar dentro do limite.
E é nesse atrito — entre presença e contenção — que o último poema se desenha.
Rute Reimão