Le Mur des Mémoires
Paulo Robalo
29.09.2026 :: 07.11.2026
Quarta a sexta 15:00-19:00, sábado até às 20:00
Le Mur des Mémoires
Em As Coisas, um dos seus poemas mais serenos, Borges enumera os objetos modestos que o acompanham e conclui que durarão para além do seu esquecimento, sem nunca saberem que ele partiu. Há nisso um consolo estranho: a matéria não sente a falta de ninguém. Le Mur des Mémoires parte da mesma constatação e segue em direção contrária. Se a matéria não sente a ausência, pode guardar a memória sem a carregar de tristeza, e é essa a função que Paulo Robalo lhe confia nas obras e nos objetos que reuniu.
Estão ali as obras de uma vida de ofício e de encontros. Mais de quinhentos diários gráficos desde a adolescência, encáusticas onde o traço já venceu a mancha, caixas de tipógrafo cheias de cera, cerâmicas, gessos e pequenos objetos de outros artistas, chegados por oferta ou troca ao acaso de residências. Uma marioneta suspensa, pincéis, um ex-voto.
E uma escada de pintor, coberta de tinta, que ocupa o centro e pousa sobre a tela maior, onde a frase estampada diz que na garganta preso o grito já não sai. A escada é o caminho para o céu, e esta está invertida. Em Borges, os objetos não pedem outro mundo. Invertida, é a escada de quem já não precisa de subir. Dois objetos trazem inscrita a sua própria palavra: ALMA, num calote de chapéu maciço, e AMAR, numa moldura dourada que pertenceu à mãe. Não são legendas. São aquilo que cada um, por uma vez, decide dizer de quem o guardou.
O humor e a gravidade partilham o espaço sem pedir licença. Aldrabas em forma de mão convidam a bater à porta de Deus, macacos levam o Criador a tribunal, e uma liberdade paga a preço alto continua a ser lembrada. A memória que aqui se deposita alimenta a emoção e a lembrança, mas não obriga à saudade.
Em simultâneo com Metamorfoses, de Luísa Ferreira, onde a fotografia incorpora o tempo da sua própria feitura, a parede propõe a duração dos objetos quietos. Quem se aproxima não encontra um arquivo. Encontra objetos que, sem saudade nenhuma, continuam a dizer o nome de quem os amou.
Paulo Robalo