Fernando Negreira
O início
A 30 de Maio de 1975, estava o Fernando no 7.º ano no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, quando foi criado o Serviço Cívico Estudantil. O objectivo era “assegurar aos estudantes uma mais adequada integração na sociedade portuguesa” e “apoiar a criação de infra-estruturas de que o país necessite”.
Ele, que pensava cursar Engenharia, inscreveu-se e foi parar à sua segunda opção, as Campanhas de Alfabetização (a primeira havia sido as Brigadas Giacometti). Portugal tinha perto de 25% de analfabetos. Com um passe da CP fornecido pelo Serviço Cívico, partiu para Trás-os-Montes com uma equipa de filmagens que rodava uma película sobre as campanhas de alfabetização. Durante Agosto, dormindo no chão da sala da Junta de Freguesia, os estudantes davam aulas a adultos na escola primária do Cachão, aldeia do concelho de Mirandela onde se situava um importante complexo agro-industrial. Consigo estavam mais nove “professores”, vindos de Coimbra e do Porto, e um orientador, esse já universitário. Davam aulas duas vezes por dia, ao final da tarde e ao princípio da noite, porque a partir das 22 horas muitas vezes faltava a luz. As pessoas traziam tachos, e era dali que comiam. Era troca por troca – letras por pão.
Mais tarde partiu para outra aldeia transmontana, Argozelo, com a mesma equipa, e nunca mais pensou em Engenharia – seguiu Fotojornalismo.
Cláudia Lobo, jornalista
Percurso
O rapaz saiu-se bem nesse estágio em 1976 e andou 50 anos de saco às costas, a fotografar para tantas publicações que não há espaço neste texto para as desbobinar. Digamos que passou por jornais, revistas, boletins, e a sua última função antes da reforma foi a de coordenador de fotografia do grupo editorial TIN-Trust In News. Mas a história começa a 26 de Abril de 1974, quando o miúdo de 17 anos vai buscar a máquina do pai e regista o descanso dos militares depois da longa jornada do dia anterior, em frente à sede da Legião Portuguesa, na Penha de França. Já então estudava Fotografia no Centro Universitário de Lisboa, depois Pro-Unep. Fez a sua primeira reportagem nas Campanhas de Dinamização do MFA, em Trás-os-Montes, integrado nas Brigadas de Alfabetização do Serviço Cívico Estudantil.
Em 2025, com a exposição “Monochrome50”, resolveu festejar os 50 anos de carreira com 40 fotos escolhidas entre as que tirou só para ele, por gosto e atenção, nos primeiros cinco anos (1975-1980). É uma Lisboa descolorida e trabalhadora, com energia, mas ainda coberta em tons cinzentos, tão escondida como os carros que esperam a libertação da cobertura de lona para o passeio do fim de semana. Lisboa fotografada com ternura, animada por limpa-chaminés, lavadeiras, funileiros e vendedores de fruta, hortaliça, peixe, barricas de vinho. Coisas do tempo em que a Praça do Comércio era um estacionamento gigante.
Ana Sousa Dias, jornalista